quinta-feira, 6 de outubro de 2011

Réquien pela Cultura de Santos:

Por Flávio Viegas Amoreira (*)
Publicado no jornal A Tribuna, 6 de outubro de 2011, página A-2


"Não mais Festival Musica Nova, não mais a Santos com uma elite intelectualizada que se foi com d. Aura Botto de Barros e o Centro de Expansão Cultural, não mais engajamento por arte elaborada, questionamento crítico, só a desolada realidade de quem veio a veraneio"

O maestro Gilberto Mendes e esposa ao lado de Flávio Viegas Amoreira
Triste uma região que comemora boom econômico ainda abstrato, já com resultados caóticos, rejubilar o êxito oco de sua alienação. Em 2010, Santos só foi destaque cultural pelas iniciativas do Sesc, falo em nível nacional. Outra manchete pouco reverberada pelo provincianismo ressentido foi o fim do mais tradicional festival de música de vanguarda da América Latina e seu ressurgimento em Ribeirão Preto, em 2012. A mentalidade jeca é altamente sofisticada em cafonice: promove o raso para detonar o denso; em Santos, em termos de Cultura, tudo ficou difícil. Tudo! Política Cultural ao avesso: dois mandatos de desmazelo propositado. Quando o Festival Música Nova faz 50 anos e seu criador, Gilberto Mendes, comemora os 90, Ribeirão Preto assume pela USP, o que perdemos sem protesto. 
Em 2012 a cidade do interior recebe músicos de todo mundo, abrindo uma lacuna aviltante para quem se pretende capital do pré-sal. 


A Bienal de Dança e o Mirada de Teatro foram ofertados de maneira emocionante pelo empenho dessa instituição que vale por muitos ministérios da Cultura, o Sesc, sob o comando incansável de Danilo Santos Miranda. Não mais Festival Musica Nova, não mais a Santos com uma elite intelectualizada que se foi com d. Aura Botto de Barros e o Centro de Expansão Cultural, não mais engajamento por arte elaborada, questionamento crítico, só a desolada realidade de quem veio a veraneio. 


Por que não temos um Festival de Verão correspondente ao de Campos de Jordão? Por que só exaltamos nossos artistas de modo tardio nessa síndrome santista de necrofilia cultural? Ao prestigiar um espetáculo no Teatro Braz Cubas me deparo depressivo com o estado fantasmagórico dessa importante peça de nossa arquitetura, outrora cenário de intensa efervescência: umprédio degradado, com reforma prometida comprometendo todo o entorno sombrio da Pinheiro Machado. 


Os jovens do Festival de Teatro criado por Pagu resistem bravamente; Pinacoteca Benedicto Calixto e pontos de cultura como a Estação Cidadania na antiga Sorocabana são oásis na paisagem intelectualmente árida nesse horizonte turvado por arranha-céus dignos de Gotham City insossa. 


A boemia é sempre um termômetro para observar o agito cultural duma comunidade: assim é na Vila Madalena, Praça Roosevelt, Baixo Augusta: pois bem, em Santos, na madrugada modorrenta, até bares de hotel fecham como se o mundo de hoje adormecesse! 


O problema aqui não é a turma do não. A cidade disse sim em excesso aos desmandos do mau gosto,de uma caótica urbanização, A turma do "Sim senhor capitalista!" é sofismática: tenta calar qualquer brado de indignação. A proximidade com São Paulo deve ser ônus, não desculpa a nossa acomodação:cultura não é um tema afrescalhado para intelectuais de salão: é uma valor de exportação, moeda no PIB mundial. 


Cultura deveria ser irmã siamesa do turismo. A noção de progresso não se mede por cimento armado, ela só pode ser avaliada por aprimoramento ético, que é estético também, e evolução que depende dum fator além do cofre: a qualidade humana de convivência. 


O CD "Gilberto Mendes: Vários compositores num só compositor
do modernismo ao pós-modernismo"
Poderia estar só vivendo a literatura, mas o artista não deleta sua ancestralidade emotiva. A alma deveria vir com antiSpam: assim o espírito de um cidadão também poderia qualificar as mensagens que recebe do tempo e projeta aos que o sucederão. Os alcaides passam e são menos ou melhor lembrados: só os artistas se eternizam: uma terra que mata à míngua festivais e suicida, por indiferença, seus artistas não será bem recebida pelo futuro, onde a criatividade será o grande lastro.


(*) Flávio Viegas Amoreira - jornalista, crítico literário e agitador cultural. Sua publicação mais recente são quatro contos escolhidos para compor o livro Geração Zero Zero: fricções em rede (2011), organizado por Nelson Oliveira.

Um comentário:

  1. Parabéns Flávio Viegas Amoreira

    Você mostrou um belo "Raio X" da atual cultura Santista. Em ano de eleição o governo deve fazer algumas maquiagens, mas vamos continuar culturalmente moribundos e agonizantes, até quando?

    Abraços
    Flavio Luiz M. Alvares

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