Em defesa da Educação Pública e Gratuita
“Para que me escutem, minhas palavras ficam delgadas às vezes, como as pegadas de gaivotas nas praias” Pablo Neruda
Por Cidinha Santos
Segundo a presidente da AELAC, Maria Sirley dos Santos, “esse movimento é importante e corajoso, e adquiriu, durante o processo, um caráter revolucionário, anti-neoliberal, e avança cada dia, através de formas criativas e lúdicas, conseguindo sensibilizar amplos e diversificados setores da sociedade”.
A seguir, texto produzido por Maria Sirley dos Santos, presidente da AELAC-Brasil, como contribuição para o debate.
"No Chile milhares de estudantes ocupam as avenidas, ruas e alamedas para lutar contra a privatização da Educação e a entrega da Patagônia a um consórcio multinacional. É o inicio da Primavera Chilena, como é chamada por eles.
Os jovens experimentam a enorme frustração que produz o modelo econômico e social que os condena a graduar-se, mas com baixa qualificação, carregando um enorme endividamento por sua educação.
Este movimento importante e corajoso, adquiriu durante o processo, um caráter revolucionário, anti-neoliberal, e avança cada dia mais, através de formas criativas e lúdicas, conseguindo sensibilizar amplos e diversificados setores da sociedade.
Tem origem no dia 13 de Maio, somente com estudantes de nível superior, que agrega novos setores sociais a cada dia. Por entenderem o chamado da forte e carismática liderança de Camila Vallego, dirigente da Federação dos Estudantes chilenos (FEUCH), professores, Reitores, familiares dos alunos, mineiros, trabalhadores da Corporação Nacional do Cobre do Chile (CODELCO), ecologistas, feministas, Associação dos Trabalhadores Municipais da Saúde, Associação Nacional de Empregados Fiscais (ANEF), Colégio de Professores do Chile, povos originários, camponeses, distintos sindicatos aderiram ao movimento.
O modelo educacional chileno é produto dos programas de reforma setorial implementado pela escala mundial imposta pelo Banco Mundial e que os países são obrigados a cumprir para poder ser resgatado das falências econômicas oriundas das distintas crises vividas pelo capitalismo.
O sistema universitário do Chile é o mais caro do mundo. Transfere uma renda de milhões de dólares às grandes empresas que controlam o ensino. Como a Laurete Education, gestora de centenas de universidades, a Sylvan, inversionista norte americana que tem o controle de 80% da Universidade Andrés Bello, além de exercer a gerência do Instituto de Formação Técnico Profissional, da Universidade de Viña del Mar e da Escola Moderna de Música, com mais de 100 mil alunos.
O Movimento estudantil é um indicador de que a aplicação da reforma educacional de mais de três décadas fracassou. Como a educação tem sido um dos eixos ideológicos de adaptação, é provável que a evidente inadequação do Ajuste Econômico à realidade do desenvolvimento chileno, seja avaliado pelos resultados do setor educacional, que hoje se esgotou por incompetência.
O movimento estudantil com grande capacidade de análise critica e consciência política denuncia a vinculação do sistema educacional ao conjunto do sistema social.
Hoje este movimento que começou na luta contra o imenso lucro do setor educacional, se converte em uma luta contra as desigualdades estruturais do Chile (60% dos chilenos tem nível de pobreza comparado ao de Angola).
O que os estudantes e o povo chileno querem é construir, com a educação, um novo projeto de desenvolvimento para o país, questionando fortemente a estrutura política. Para tanto exigem uma nova Constituição através da convocatória de Assembléia Constituinte. Exigem educação gratuita e de qualidade para todos, e que o Estado assuma seu papel protagonista na administração das finanças realizando uma Reforma Tributária. Propõem ainda a renacionalização das minas de cobre e de outros setores da mineração.
O movimento estudantil levantou uma demanda que toca no mais essencial do modelo político, econômico e social instaurado pelo neoliberalismo. Provocou uma violenta reação do governo chileno, com formas de repressão cruéis, inclusive, matando um estudante de 16 anos e prendendo mais de 1300 pessoas.
Mas, nada intimida os jovens estudantes chilenos que seguem ocupando avenidas e alamedas para que no futuro por elas possa passar o homem novo."
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